10 dezembro 2008

Certos Excertos.

"Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da crise, a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior."

Dom Casmurro - Machado de Assis

08 dezembro 2008

Poemículo



O C A S O

Nesta noite fria
já não adianta buscar holofotes, candeias, miragens, fagulhas, estrelas,
raios, luzeiros, reflexos, feixes, lâmpadas, velas,
ou mesmo a mínima centelha de um talvez.
Está tudo apagado entre nós.

23 novembro 2007

Contextos.

"Falei pra você. Esse pessoal aqui de Berlim é super sangue bom."

- Adolf H.

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21 novembro 2007

Que venham os sapos.

"We might be through with the past, but the past ain't through with us."

"Sometimes people need a little help. Sometimes people need to be forgiven. And sometimes they need to go to jail. But if you can forgive someone, well, that's the tough part. What can we forgive? Tough part of the job. Tough part of walking down the street."

- do filme Magnólia.


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09 outubro 2007

Jardim de Hespera

Cintila que eu vi
o dourado das cores
douradas das flores
daqui.

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Clarividência

Só quem tem os olhos d'água
que conhece essa arapuca:
quando acorda em dia claro
sai da cama e a luz machuca.

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20 setembro 2007

Beth

Ali estava ela, envolta em espasmos de burocracia e registros. A mão esquerda escorava o crânio seco em pensamentos, que ao mormaço das três da tarde pesava como o próprio mundo. Essa mão, em punho semi-cerrado contra a bochecha, turgia de rugas o rosto enfadado. Seus dedos, embebidos em tinta azul de carimbo, marcavam a pele já amolecida pelo calor.

Destacava-se naquela mão a afiada unha do dedo menor. Ela ganhava das outras em tamanho e impertinência, e apostava ao teto suas vontades. Ou melhor, sua vontade de ter vontades. De parar, por uma vez, e balançar com batuta de mestre a derramada rotina. Levantar-se de impulso da cadeira e rodar uma última vez aquela sala que mais parecia uma gaiola. E cuspir pra fora um grito do fundo da alma para encher os vizinhos de engasgo, fugindo do protocolo, do código, da ata de escritura, do livro-maior e da própria vida. E chutar o tapete com aquele desenho sempre sujo, e derrubar finalmente o quadro velho e agourento do prefeito com aquele sorrisinho bobo e enterrar definitivamente o enferrujado ventilador que não pára de ranger e depois destruir de um golpe as cortinas ralas que não impedem a entrada do sol insuportável e rasgar cada papel inútil espalhado sobre a mesa e avançar no teclado da máquina de escrever até que não sobre tecla nenhuma e voar sobre as canetas sempre engasgadas e o grampeador que só prega errado e jogar tudo ao chão de tacos soltos para poder finalmente esganar e degolar bem rápido o sujeito cidadão parado em sua frente que para ela não passa de um número de cadastro com aqueles olhos de fantasma que não conseguem entender nem preencher direito a porra do formulário verde dois bê.

Mas essa unha, em vez disso, não faz mais que meter-se ao centro da orelha esquerda, apaziguando uma coceira que vinha da falta de pensamentos. E aí, dentro de um mesmo suspiro, carimbo visto caneta engasgada três grampos carimbo com data mais cópia simples barulho de teclas no formulário verde dois bê.

Ainda três da tarde. Sala vazia, cortina inútil, crânio sem pensamentos, seu rosto volta a amolecer no calor e na tinta.

17 julho 2007

Há poetas em toda parte.

"A cozinha é perversa e libidinosa...."

- Alex Atala (chef de cozinha)

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16 julho 2007

Há poetas em toda parte...

"Chegou a hora de mudar a rotina e deixar os preconceitos de lado. Diversos casais trocam de esposas e maridos num jogo de muito erotismo e sexo num lugar onde a infidelidade consentida é a fantasia consumada."

- sinopse do filme Swingers Party #2

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28 junho 2007

O que é que há, velhinho?

"Consider an object. Call what is not the object "other". Add to the object, from the "other", another object, to form a new object and a new "other". Repeat until there is no more "other". Take a part from the object and add it to the "other", to form a new object and a new "other". Repeat until there is no more object."

George Brecht

28 maio 2007

O Púcaro Búlgaro

“Descobri Rosa entre vetustos papéis, pelo vetustos se pode ver quão velhos eram, pelo quão também.”


“Não sou eu que ando um pouco fora de época: é a época.”


“(...) o que impede a antropofagia é apenas a má qualidade da carne humana, aliás péssima, e não conceitos ou preconceitos morais ou religiosos que nunca evitaram coisíssima alguma em parte nenhuma, como o atestam os tempos de guerra e sobretudo os tempos de paz”


- Campos de Carvalho -

14 maio 2007

A notável modernidade.

Uma balada de cúmbia ou uma risada de bruxa. Uma sirene de policia ou o último sucesso da Britney Spears. Um galo cantando. Um poema do camões em forma de hip-hop.

Hoje em dia, os celulares não tocam mais: eles se manifestam.

05 maio 2007

Praticamente Inofensiva - Douglas Adams

"Qualquer coisa que pense logicamente pode ser enganada por outra que pense no mínimo tão logicamente quanto ela."

"Um erro comum que as pessoas cometem quando tentam projetar coisas completamente à prova de imbecis é subestimar a ingenuidade dos imbecis completos"

"A maior diferença entre uma coisa que pode pifar e uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum é que, quando uma coisa que não pode pifar de jeito nenhum pifa, normalmente é impossível consertá-la"

"A coisa mais assustadora sobre os Vogons era sua determinação absolutamente irracional para fazer qualquer coisa irracional que estivessem determinados a fazer."

“Uma coisa encorajadora que o Guia tem a dizer sobre os universos paralelos é que você não tem a menor chance de compreendê-los. Você pode, portanto, dizer coisas como “o quê?” e “hein?” e até mesmo ficar vesgo e fazer papel de tolo sem ter medo de parecer ridículo. A primeira coisa que devemos saber sobre universos paralelos (...) é que eles não são paralelos. Também é importante saber que eles não são, estritamente falando, universos, mas fica mais fácil tentar compreender isso depois, após compreender que tudo o que você havia compreendido até então não é verdade.”

“Proteja-me de ficar sabendo daquilo que não preciso saber. Proteja-me até mesmo de ficar sabendo que existem coisas que eu não sei. Proteja-me de ficar sabendo que decidi não saber das coisas que decidi não saber. Amém.”

21 março 2007

Mais profundo do que parece

As pequenas coisas da vida servem pra gente rir delas.

As grandes, pra rir da gente.

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.......

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09 novembro 2006

Resmunguinhos com vitamina C.

"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim."

"Sobre o Xadrez:
Jogo chinês que aumenta a capacidade de jogar xadrez."

"A maior vantagem da comida macrobiótica é que, por mais que você coma, por mais que encha o estômago, está sempre perfeitamente subalimentado."

"Chato...Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele."

"Natação e Automobilismo:
Tenho absoluta incapacidade de admirar um homem apenas porque ele é melhor do que o outro um centésimo de segundo."

"Passado: É o futuro, usado."


"Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada."


Millôr Fernandes

08 novembro 2006

Dos paradoxos da metafísica.

"We are such stuff
As dreams are made on and our little life
Is rounded with a sleep..."

- Shakespeare (The Tempest)


Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos.

Constatação sem Pedigree.

O vira-lata não tem conforto, passa fome e arrisca ser atropelado a todo tempo.
Mas, sempre quiser, pode sair cantando à toa por aí.

Meus Planos para o Futuro.


“(...) poderíamos traçar em conjunto alguns planos mais ou menos acidentados no sentido de pelo menos começar a pensar em ir para um ponto de partida qualquer.”

- Campos de Carvalho (O Púcaro Búlgaro)

24 outubro 2006

Balada precoce da Física quântica

já tava tudo lá, na poesia barroca.


"O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo."

Gregório de Matos

De dentro pra fora e de fora pra dentro.

"Assim como uma bala
enterrada no corpo,(...)
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
(...)
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

(...)
pois de volta da faca
se sobe a outra imagem,
àquela de um relógio
picando sob a carne
,(...)"


João Cabral de Melo Neto (Uma Faca Só Lâmina - 1955)

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"O relógio vendeu as horas para quem quisesse comprar"




20 setembro 2006

Para dizer com elegância.

Memória da pele

(João Bosco e Waly Salomão)

Eu já esqueci você, tento crer
Nesses lábios que meus lábios sugam de prazer
Sugo sempre, busco sempre a sonhar em vão
Cor vermelha, carne da sua boca, coração

Eu já esqueci você tento crer
Seu nome, sua cara, seu jeito, seu odor
Sua casa, sua cama, sua carne, seu suor
Eu pertenço à raça da pedra dura

Quando enfim juro que esqueci
Quem se lembra de você em mim, em mim
Não sou eu, sofro e sei
Não sou eu, finjo que não sei, não sou eu

Sonho bocas que murmuram
Tranço em pernas que procuram, enfim...
Não sou eu, sofro e sei
Quem se lembra de você em mim, eu sei, eu sei...

Bate é na memória da minha pele
Bate é no sangue que bombeia na minha veia
Bate é no sangue que borbulhava na sua taça
E que borbulha agora na taça da minha cabeça

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A punheta mais poética da música brasileira.

12 setembro 2006

Inventisse


"When I read I figure the meaning, if I can, and when I can´t, I say, Oh, very well, there´s better fish in the sea than was ever been caught."

- Carl Sandburg (Fables, Foibles, and Foobles)


Um grande abraço a São Petersburgo, pexinho cor de buraco que nunca sarou da rinite alérgica, gosta de ver jogo de rugbi, come macarrão aos domingos e não existe.

Este abraço talvez não chegue a ele, porque pro Peter eu é que não existo. Mas neste momento ele pode estar lá me mandando seus cumprimentos, a mim que não tenho melanina, respiro com pulmões e como goiaba vermelha, o que me exclui permanentemente da classe de coisas que existem para um peixe desse tipo.

Um abraço, meu grande e real amiguinho.
Nosso mundo é esse mar, o fora dele e todo resto. Todo o tanto desse todo resto.


30 agosto 2006

Toca, Raul.

"O que eu como a prato pleno
Bem pode ser o seu veneno
Mas como vai você saber
Sem provar?"


"Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
(...)
Vem, mas demore a chegar.
(...)
Morte, morte, morte,
que talvez seja o segredo desta vida"

Raul Seixas

21 agosto 2006

Estranho é o Plácido Domingo e a senhora sua mãe.

"(...) o ornitorrinco não é horrível, mas prodigioso e providencial para pôr à prova uma teoria do conhecimento. À propósito, pela sua aparição muito remota no desenvolvimento das espécies, insinuo que não seja feito com pedaços de outros animais, mas que os outros animais é que são feitos dos seus pedaços"
Umberto Eco - Kant e o Ornitorrinco


E já dizia a facção astrológica da velha guarda dos ditos populares:
"Aquarianos são normais. O resto do mundo é que é muito esquisito."


Por alguma experiėncia pessoal, e dando crédito ao alinhamento dos astros e às jocosidades da natureza, me parece que todo aquariano é um pouco ornitorrinco.

16 agosto 2006

Que beleza.

"Quem é belo
é belo aos olhos
- e basta.

Mas quem é bom
é subitamente belo"


Safo

Brinca Comigo!

"Você pode descobrir mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira que em um ano de conversa"

- Platão

10 agosto 2006

O exagero e a ousadia, numa cova de prudência, serão ainda exagero e ousadia?


\ @ /

tautologia

Você repete, repete, repete, e de repente quer fugir. Você foge, e aí quer continuar fugindo. E a fuga repete, repete, e de repente já não foge de mais nada. E aí você pára.

Até onde uma fuga da rotina consegue ir, sem se tornar uma nova rotina vestindo uma máscara de fugir dela mesma?

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02 agosto 2006

Isso resume bem.


"There is not enough time to do all the nothing we want to do."

Bill Waterson


31 julho 2006

De malungo pra malungo. E viva a bagunça.

"E com o bucho mais cheio comecei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar"


"Deixai que os fatos sejam fatos naturalmente
Sem que sejam forjados para acontecer
Deixai que os olhos vejam os pequenos detalhes
Lentamente deixai que as coisas que lhe circundam
Estejam sempre inertes como móveis
Inofensivos para lhe servir quando for preciso
e nunca lhe causar danos
Sejam eles morais físicos ou psicológicos"


Ê, Chico Science.

29 julho 2006

Patéticos e limitados. Mas em constante evolução.

"There's a journey of evolution – adaptation... the journey we all take... the journey that unites each and every one of us. (...) What I came to understand is that change is not a choice, not for a species of plant, not for me. It happens, and you are different."

"There are too many ideas and things and people – too many directions to go. I was starting to believe the reason it matters to care passionately about something is that it whittles the world down to a more manageable size."


do filme Adaptação

26 julho 2006

Quem é louco?

"Hoje em dia não existe mais gente inocente. O que existe é esperto ao contrário"

"A gente não tem que ajudar quem precisa. A gente tem que ajudar quem merece. Porque precisar todo mundo precisa."

Dona Estamira, no filme "Estamira"

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26 junho 2006

Achalay

"(...)
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar."

Entre coiotes e buddhas, Exu e Nirvana, rituais de penas e entrega de hóstias, iluminação e reencarnação, conhecimento e Pachamama, no final das contas a mensagem geral há de ser sempre a mesma.
É uma questão de escolhas, acima disso tudo. De caminhos pessoais, entre os guerreiros. Somos todos guerreiros, nós vivos. Batalhas bem travadas são em si uma vitória. De que importa o final? De que importam os finais? Eles não estão aqui agora.

23 junho 2006

13 junho 2006

Diga aí, rei.


"Em paz com a vida e o que ela me traz
Na fé que me faz otimista demais
Se chorei ou se sorri
O importante é que emoções eu vivi"

Emoções - Roberto Carlos

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03 junho 2006

Tá aí um cara que sabe das coisas.


Hobbes:
"Why are you digging a hole?"

Calvin: "I'm looking for buried treasure!"

Hobbes: "What have you found?"

Calvin: "A few dirty rocks, a weird root, and some disgusting grubs."

Hobbes: "On your first try?"

Calvin: "There´s treasure everywhere!"


http://images.ucomics.com/comics/ch/1995/ch950603.gif

26 maio 2006

Paciência

"Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (Tão rara)"

- Lenine e Dudu Falcão

18 maio 2006

O lúbrico abraço do mundo;

"Enquanto isso
anoitece em certas regiões
E se pudéssemos
ter a velocidade para ver tudo
assistiríamos tudo (...)"

- Marisa Monte, Enquanto Isso

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11 maio 2006

E o que ser, dessa coisa que se é?


"You might take notice when I read I skip the periods because they say stop and I say why should I stop?"

- Carl Sandburg, Fables, Foibles and Foobles



"(...) e o não-senso, crê-se, reflete por um triz a coerência do mistério geral, que nos envolve e cria. A vida também é para ser lida."


- Guimarães Rosa, Tutaméia

27 abril 2006

Certas Semelhanças


Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar
A vida é feita de um rosário
Que custa tanto a se acabar
Por isso às vezes ela pára
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Nossa, pra que tanta conta
Já perdi a conta de tanto rezar

Se a outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão
A vida é sempre aquela dança
Aonde não se escolhe o par
Por isso às vezes ela cansa
E senta um pouco pra chorar
Que dia! Puxa, que vida danada
Tem tanta calçada pra se caminhar

Mas toda santa madrugada
Quando uma já sonhou com Deus
E a outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor
Que dia! Cruzes, que vida comprida
Pra que tanta vida pra gente desanimar


Chico Buarque - Umas e Outras

04 abril 2006

Sobre desejo, mulheres e comoção.


Dez Chamamentos Ao Amigo


I.
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

(Hilda Hilst)


Me comovem

Me comovem
tuas mãos limpas
e tua boca suja.

(Eliane Pantoja Vaidya)


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30 março 2006

Pelos Velhos Tempos. (Que salvam, às vezes, os tempos novos)

Tora Tora
“A gritaria rindo anuncia a hora
Eu tô cansado eu vou-me embora
Vou de volta pro meu lar
Volto pra casa pra mulher e pros meus filhos
Mas não largo do gatilho
Essa herança é de lascar
Sendo animal preferi ser o predador
Não sei fingir, não sou ator
Só vô querer o que quiser
O sanfoneiro toca a música da morte
Com minha faca eu abro um corte
E tu sangra quanto sangue tiver
(...)
Como troféu de caçador na sua parede
Trinta e sete almas na rede
Eu levo prá todo lugar
É claro que morrer de tiro niguém gosta
Então eles grudam nas minhas costas
E ficam só me dando azar
Não tem problema minha cabeça tá tranqüila
Querem briga façam fila
Estou aqui e não arredo pé
Cabra safado em dois tempo te encho de bala
Emudeço a tua fala
E tu sangra quanto sangue tiver”

Bestinha
“Pra ser ditado eu não vou pra escola
Sem professor eu aprendi
Que quem faz falta é quem não vai na bola
Quem me segura se eu cair”


Até hoje não existe nada melhor que as músicas antigas dos Raimundos para descarregar o stress. E provavelmente para expulsar demônios, tirar mau-olhado, expurgar maldição, salgar bacalhau, libertar poloneses, coisas assim.

29 março 2006

Nada mais do que nada menos

Em Guiné-Bissau se fala português. E ó: lá não existe uma palavra para “homossexual”. Esse conceito é obscuro e indefinível.
Ou não existe ninguém desse gênero por lá ou eles simplesmente ignoram o fato e vivem todos do jeito que os padres gostam.
Um amigo de um amigo, que é de Guiné-Bissau, disse sobre o homossexualismo que “isso é coisa de brasileiro”.
Engraçado como a abrangência da língua pode excluir alguns conceitos do cotidiano. E, de certa forma, moldar vieses do comportamento humano.
E os machões mais inseguros já têm para onde ir.

Certos Excertos

Saímos ou entramos? Te aperto as mãos
e ficamos adormecidos com saltos e sobressaltos.

Saímos? Uma praia com uma rena
ouve na altura vozeirão de uma nuvem.
Entramos? O bosque se retira, a decoração
se aproxima de uma festa campestre filandesa.
Entramos? Desgasto teus braços.
Saímos? Saltam os olhos mortais de um mineral.

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Não é seu banho o do corpo afetado que vacila
Entre a tepidez da água e da fidelidade miserável do espelho.
Glória! A água converteu-se em rumor bem-aventurado.
Não é que João tenha vencido o azeite fervendo:
Esse pensamento não o assedia, não o desonra.
Amigou-se com a água, transfundiu-se na amizade onicompreensiva.


- Lezama Lima (traduzido)

CH2-CH2

O que a Playboy faz hoje não é simples reprodução de imagens, é muito mais mentiroso que isso. Não só ela, obviamente, mas quase todas essas revistas aí de gente pelada. Dá pra perceber muito isso vendo os famosos "antes e depois", observando a fotografia original sem tratamento. E depois tudo fica meio óbvio. Pessoal, em que mundo você vivem? As pessoas têm manchas, cicatrizes, espinhas, pêlos, ossos saltados, uma porção de coisas. Só que esse tipo de realidade não interessa, aparentemente não atrai. A celebridade da revista tem que ser de polietileno, senão não é a celebridade da revista. Aprendemos a gostar de pernas e peitos e bocas de plástico. São texturas de pele absolutamente irreais, construídas pixel a pixel pelo Deus Photoshop. O que as revistas fazem é vender sonhos, é aproximar o comum do ideal, nada mais justo. São as esculturas helênicas da modernidade. O estranho disso tudo é que esse ideal não é pele, é plástico. Que tipo de proximidade tem essa contemplação? As pessoas se imaginam abraçando aquelas texturas lisinhas, brilhantes, de cor falsa? As pessoas se apaixonarão cada vez mais por um catálogo de Barbies?
Acho interessante.

24 março 2006

Certos Excertos

"A bença Manoel Chudu

O meu cordel estradeiro
Vem lhe pedir permissão
Pra se tornar verdadeiro

(...)

É planta que cobre o chão
Na primeira trovoada
A noite que desce fria
Depois da tarde molhada

É seca desesperada
Rasgando o bucho do chão

É inverno e é verão

(...)


Vocês que estão no palácio
Venham ouvir meu pobre pinho
Não tem o cheiro do vinho
Das uvas frescas do Lácio
Mas tem a cor de Inácio
Da serra da Catingueira
Um cantador de primeira
Que nunca foi numa escola

Pois meu verso é feito a foice
Do cassaco cortar cana
Sendo de cima pra baixo
Tanto corta como espana
Sendo de baixo pra cima
Voa do cabo e se dana"



- Cordel do Fogo Encantado ("O Cordel Estradeiro")



21 março 2006

Certos Excertos

“George Orwell estava errado. O Big Brother não está vigiando coisa alguma. Ele está cantando e dançando. Está tirando coelhos da cartola. Ele se dedica a prender nossa atenção durante cada minuto que passamos acordados. Quer garantir que estejamos sempre distraídos. Quer garantir que estejamos sempre absortos.
(...)
Aí está o Big Brother, cantando e dançando, alimentando-nos à força para que nossas mentes nunca sintam fome o suficiente para pensar.”

Chuck Palahniuk – Lullaby (“Cantiga de Ninar”)



(se alguém tiver Soma aí eu tô comprando.)